DESEJOS DE FUTURO DE TODOS NÓS

Uso computador há mais de 20 anos. Mas não tinha, até agora, uma intimidade real com pixels e seus significados e significantes.
Comecei, faz pouco mais de um mês, a remexer nas redes sociais. E estou impressionada. Há um palavra que grita em néon para todos nós:
FUTURO.
O que mais chama a atenção é que essa palavra também está em alta nos atendimentos como terapeuta floral. Ou a angústia do futuro que virá. Ou o temor da falta de tempo para novos futuros.
Resolvi, então, que, nos próximos dias, vou contar (e será muito bom também ouvir) umas histórias sobre desejos de futuro…

A de hoje será curta:

2015-05-07 13.03.28

I – PERDIDO ENTRE OS YANOMAMI

“Tive meu filho aos 24 anos. Mal tinha iniciado a carreira de jornalista com todos os seus malabarismos. Já entrevistara presidente da República e ministro de Estado, mas ainda tateava nos caminhos por onde aquilo tudo poderia me levar… Quando Bruno fez uns 8 meses e parei de amamentar, fui escalada para fazer uma matéria numa aldeia Yanomami, em Roraima. Naquele 1985, os Yanomami já despertavam o interesse internacional há uns 15 anos. Há reservas minerais fartas naquela região. Pus os pés no que seria a estrada Perimetral Norte já quase sumida na imensidão da floresta. E conheci um rapaz que acabara de regressar para o seio de seu povo. Ele fora ‘adotado’ ainda bebê pela morte dos pais índios. Fazia poucos dias seus pais brancos tinham-no ‘devolvido’ para que ele se ‘reintegrasse’. Estava com uns 18 anos e completamente atônito:
– Qual será o meu futuro perdido aqui? – repetia.
Ele só falava português e naquela aldeia habitada por menos de cem pessoas, apenas uma delas também arranhava o português. Estudara na cidade e ali não havia escola num raio de mil quilômetros. Nunca tinha plantado nada e olhava para a roça de mandioca como se estivesse num louco sonho…

Fiquei naquela aldeia uns cinco dias. E também fiquei imensamente abismada com as crianças. Elas corriam livremente por floresta e rio sem qualquer preocupação dos pais. Não ouvi um único gemido, uma única reclamação ou birra, um único choro. Nem de criança, nem de adulto. E olhem que vi uma onça solta bem de perto.

Só ouvi os lamentos daquele rapaz que perdeu os pais duas vezes e estava sem enxergar o futuro”.