O PORTEIRO QUE PASSOU NO ENEM COM LOUVOR

Monica T Maia

Não tem um só dia que esse cara esteja de bobeira. Ou ele está trabalhando ou está estudando. E conhecemo-nos faz seis anos e vemo-nos diariamente. Assim, quando ele passou – via Enem – para Tecnologia em Sistema da Computação numa universidade pública (uau!) fizemos uma festa.

Marcone Pereira dos Santos, de 36 anos, casado e pai de uma linda menina de 6 anos, é o porteiro do prédio que moramos e uma das melhores pessoas que já conheci. Nunca tem tempo ruim pra ele. Mesmo com febre, dá sorrisos; mesmo tendo sido obrigado a largar a primeira faculdade (paga) há cinco anos, não desistiu. Fez o Enem quatro vezes e, agora, conseguiu! Está estudando na Universidade Federal Fluminense.

Marcone, uma homenagem proposital ao inventor do telefone, é um exemplo fantástico de que todos podem aprender e crescer na vida com esforço próprio. Sem caminhos enviesados.

Às vezes, seus olhos estão pequeninos na portaria. Cansaço puro. Mas voltam a se iluminar quando diz que fará uma prova no fim de semana.

Seu maior sonho – o que é mais incrível ainda – é ser professor! “É a profissão melhor do mundo, a mais importante”, exclama ele, mesmo sabendo que muitos professores ganham menos do que ele como porteiro. De qualquer maneira, Marcone nunca será um professor convencional, como não é um porteiro convencional.

Ele conserta tudo o que vocês puderem imaginar. E o que ele não conserta logo de saída, vai adiante buscar ensinamentos para consertar, para construir. Sempre entusiasmado, sempre acreditando que vai realizar.

– Nunca tive ambição pelo dinheiro, mas tudo o que quis, eu consegui.

Marcone é daqueles que tem a grande sabedoria: o que importa, o que dá felicidade, é o processo de buscar coisas. E não só alcançá-las. Ou, simplesmente, comprá-las.

Ele e os quatro irmãos nasceram na distante Sapé, na Paraíba, a 42 quilômetros da capital João Pessoa. Uma cidade com 70 mil habitantes.

– Vim pra cidade maravilhosa atrás de emprego e sempre quis o estudo. Queria uma faculdade!

Em 2011, iniciou o curso de Tecnologia da Informação na Estácio. Mas não deu conta de sustentar. Mesmo com muitos serviços extras, tinha criança recém-nascida, acordava muito durante a noite. Pifou o bolso e o corpo. Por pouco tempo. Logo pôs na cabeça que ia passar para uma faculdade pública. Sabem, aquelas vagas muito difíceis que acabam nas mãos dos que estudam nas melhores escolas pagas? Pois é, o porteiro Marcone foi lá e arrebatou uma. E ele nem tem direito à qualquer cota especial… Só ralou, ralou, ralou. Como aquele pesquisador que fica dias e noites a fio no laboratório para descobrir a cura de uma doença. Sem olhar para relógio de ponto ou se preocupar por quantas horas trabalhar. Marcone é desses. Desse Brasil fantástico que produz por mérito e para a coletividade.

Não há um só gesto de gentileza que ele deixe de fazer. Uma senhora chega carregando sacolas de supermercado e ele vai ajudar no mesmo instante. O outro não consegue estacionar na garagem antiga e extremamente apertada e ele, prontamente, manobra o carro com a maior facilidade. A outra chega com os lábios amarrados porque teve um dia pesado e recebe um sorriso de volta e já se desarma.

Marcone parece pronto para viver num novo tipo de civilização. Em que as outras pessoas têm tanta importância como nós mesmos. Ele tem até uma fórmula mágica para ser assim:

– Sempre fui muito pensativo. Vêm muitas coisas na cabeça, às vezes vem raiva. Mas logo a raiva passa e busco o resultado e tudo acontece.

Marcone é casado com a simpática Elania (que também trabalha muito!) e a filhinha dos dois é a Duda. Essa família, reunida e forte, é o seu sustentáculo. Não teve qualquer folga para estudar mais no meio do vai-e-vem da portaria, com as buzinas da rua movimentada ecoando. Mas elas seguraram firme e, mesmo exausto, adoentado, com febre, fez as provas do Enem com louvor. Quando acabaram, tinha perdido 5,5 quilos, mas pôde escolher a Universidade que estudaria.

Foto-Marcone

– Tenho vários sonhos e tenho os mesmo direitos que qualquer pessoa, rica ou pobre, de consegui-los.

Marcone quer dar aulas e fazer palestras. Imagina isso desde que assistiu Steve Jobs encantar uma plateia numerosa da Universidade de Harvard.

– Meu objetivo é que pessoas prestem atenção. Se uma pessoa de 50 lembrar de mim depois, minha missão estará cumprida.

A mais importante delas, a como “ser humano”, certamente, está sendo cumprida. Ele será um professor maravilhoso. Será o que quiser.

O FLORISTA MÉDICO QUE PERDEU A ÚNICA FILHA

Paulo Botelho é florista desde os 9 anos. Sua banca em feiras da cidade enche os olhos de cores e perfumes. De Vila Real, Trás-os-Montes, Portugal, seu pai Albertino e sua mãe Maria Helena já eram floristas antes dele. Paulo é o mais moço filho do mais antigo florista das feiras do Rio. Mas essa linda história não para aí: com as flores e o esforço também das irmãs Maria Leonídia e Cláudia, Paulo se formou em Enfermagem e, mais adiante, em Medicina. Ele trabalhava com a beleza e a vida também em hospitais até 6 de setembro de 2014.

Paulo Botelho

Florista, médico e enfermeiro, os sonhos de Paulo Botelho buscam o reencontro com a filha Bia.

Naquele dia, sua única filha Ana Beatriz Novaes Botelho, de 20 anos, sentada num banco em frente à praia, na Ilha do Governador, foi atropelada por um motorista de apenas 21 anos que dirigia a 120 quiIômetros por hora, segundo testemunhas. O rapaz não prestou socorro. Bia ficou com múltiplas fraturas e lúcida. Entendia e sentia tudo, mas o seu aparelho respiratório acabou não resistindo ao impacto tão violento. Ela morreu doze dias depois. Era um grupo de amigos que conversava numa praça. O motorista também atingiu Vitor Tadeu de Oliveira Leal que, felizmente, sobreviveu.
Depois de tantas conquistas, Paulo sonhava, aos 45 anos, ter mais um filho. Bia sonhava com um irmão. Até batizou-os: Bernardo ou Maria Clara, dizendo que seria a madrinha. E também prometia ao pai netinhos “para breve”. Bia tinha muitos outros sonhos: estudante do 2º ano de Nutrição na Veiga de Almeida, presidente da comissão de formatura, estagiária em clínicas e monitora de Anatomia, ela planejava montar uma casa de atendimento para pessoas humildes. “Quero ajudar quem mais necessita”, repetia ao pai querido. Paulo já colocara à sua disposição um imóvel adquirido com trabalho estenuante.

Bia Botelho
A bela Bia Botelho.

Tirada da Terra muito prematuramente, Bia levou com ela uma parte de Paulo. Ele continua enfeitando feiras com suas flores, mas não consegue trabalhar como enfermeiro e médico – está de licença dos empregos públicos que conquistou por concurso. Faz tratamento psiquiátrico para tentar suportar a dor. É como se uma camada de vidro opaco cobrisse o seu olhar. O sorriso só começa a reaparecer agora, com muito esforço, e apenas quando lembra das boas lembranças que a filha deixou.
O nome do rapaz acusado de matar Bia está na minha frente no boletim de ocorrência. Ele é acusado de lesão corporal culposa e continua com vida normal. Há a desconfiança de que estava alcoolizado. Quantas vezes Paulo deixou de almoçar para conseguir ajudar os pais com as flores e, ao mesmo tempo, cursar a faculdade? No vestibular para Enfermagem passou em primeiro lugar, no vestibular para Medicina passou para a primeira opção da Cesgranrio. Paulo só conseguiu fazer Medicina dois anos depois de concluir Enfermagem porque sempre teve que trabalhar muito. “O que valeu tudo isso se a Bia não está mais aqui?”, pensa incessantemente o médico florista. Ele ainda não sucumbiu porque sua família continua sendo um esteio: os pais, as irmãs, a mulher Alessandra Pappaterra. Bia era filha de seu primeiro casamento com Flávia Barreto Novaes, também devastada pela perda. Todos estão se apoiando uns nos outros. “Meu afilhado Luizinho, meu professor de boxe Alessandro e o mestre Casquinha, do jiu-jitsu, também têm me ajudado muito”.
Nesse instante, penso nos pais do rapaz acusado de matar Bia. O que eles pensam e o que sentem? Como se sentiriam se seu filho fosse morto? Para entendermos a dor temos que nos colocar no lugar do outro que a sente. Espero que, aprendendo com a dor do outro, eles nunca sintam uma dor igual.

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