DESEJOS DE FUTURO DE TODOS NÓS (2ª história)

Sobre a angústia do futuro que virá.
Ou o temor da falta de tempo para novos futuros.
Continuo contando histórias:

2015-03-25 16.46.23

II – O BEBÊ SAIU PELO MUNDO

“Foi inesperado engravidar aos 23 anos. Estava iniciando a concorrida carreira de jornalista. Morava em Manaus, trabalhava num jornal local, mas sonhava bem alto – desde os 14 anos – em ser correspondente internacional. Mirei aquela avestruz trazendo no bico o pano que amparava o bebê que chegaria. Sem qualquer dúvida: positivo! Devo ter hesitado por segundos. Sim, aquele bebezinho de papel iria virar um bebê de verdade. Entrei na faculdade de Comunicação aos 16 anos e fui workaholic desde o primeiro estágio profissional. Sempre trabalhei mais do que pediam, sempre quis aprender mais. A enormidade da floresta amazônica me mostrava, a todo instante, que voar para novos horizontes dependia de um esforço extraordinário. E o lindo bebê que chegaria acompanharia isso tudo.

Por volta dos cinco meses, a barriga mal aparecendo, fui cobrir um comício das Diretas Já. Deve ser muito difícil hoje imaginar o que era, na época, a sensação de estar sendo vigiada o tempo todo. Em sala de aula, nas redações, nas manifestações. Num determinado instante, já anoitecendo, a luz da área desapareceu. A praça coberta de pessoas ficou na penumbra. Alguns de nós, jornalistas, próximos ao palanque lotado de personalidades (Dr. Ulysses Guimarães, Tancredo Neves etc.), resolvemos descer as escadarias que levavam à calçada para tentar descobrir o que estava acontecendo. Naquele instante brasileiro, aqueles comícios começavam a ser tomados por multidões e havia desconfianças de tentativas de boicote, como cortar a iluminação pública do evento. Um jornalista bem conhecido no cenário nacional resolveu caminhar até a esquina, a 50 metros, e eu, de olho no que fazia o bambambã, acompanhei-o. Quando viramos à esquerda, parecia que um homem, no alto de uma escada, mexia nuns fios de um poste. Alguns policiais vieram em nossa direção. Um deles encostou o cassetete na minha barriga. Com alguma força. Acho que não o suficiente para machucar, mas a gravidez me fez ter medo pela primeira vez na vida. Dobrei-me em duas. O jornalista me amparou. Os policiais sumiram na curva da rua. Quinze minutos depois a luz voltou.

Aquele medo inédito me fez ficar alguns dias repensando se continuaria aquela louca carreira. Daquele jeito. Não gostava de ficar sentadinha diante do telefone e da (acreditem!) máquina de escrever. Gostava de estar nas ruas. De peito aberto… Bem, claro que fiquei mais cautelosa dali pra frente. O bebê passou a ser – e é até hoje – o que há de mais importante na minha vida. Mas continuei perseguindo o sonho com toda a determinação até a minha primeira missão internacional.

Ao desembarcar em Lisboa num incrível 29 de fevereiro, ano bissexto, muito frio e uma chuvinha intermitente nos apresentaram à Europa. Meu filho estava comigo e nós não imaginávamos então que, em muito pouco tempo, conheceríamos Marcello Mastroianni ou veríamos, na Inglaterra, o funeral da princesa Diana. Tive que levá-lo a muitas coberturas porque não tinha com quem deixar. O pai ficara no Brasil”.

8 comentários sobre “DESEJOS DE FUTURO DE TODOS NÓS (2ª história)

  1. Uma bela e emocionante história de vida, compartilhada com seus leitores amiga. Os sonhos são para ser sonhados, vividos e acalentados pelo nosso coração. Obrigado pela partilha! Aproveito para desejar-lhe um belo domingo e abençoada semana, extensivo a sua querida família. Luz e Paz e um forte braço fraternal!

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