O FLORISTA MÉDICO QUE PERDEU A ÚNICA FILHA

Paulo Botelho é florista desde os 9 anos. Sua banca em feiras da cidade enche os olhos de cores e perfumes. De Vila Real, Trás-os-Montes, Portugal, seu pai Albertino e sua mãe Maria Helena já eram floristas antes dele. Paulo é o mais moço filho do mais antigo florista das feiras do Rio. Mas essa linda história não para aí: com as flores e o esforço também das irmãs Maria Leonídia e Cláudia, Paulo se formou em Enfermagem e, mais adiante, em Medicina. Ele trabalhava com a beleza e a vida também em hospitais até 6 de setembro de 2014.

Paulo Botelho

Florista, médico e enfermeiro, os sonhos de Paulo Botelho buscam o reencontro com a filha Bia.

Naquele dia, sua única filha Ana Beatriz Novaes Botelho, de 20 anos, sentada num banco em frente à praia, na Ilha do Governador, foi atropelada por um motorista de apenas 21 anos que dirigia a 120 quiIômetros por hora, segundo testemunhas. O rapaz não prestou socorro. Bia ficou com múltiplas fraturas e lúcida. Entendia e sentia tudo, mas o seu aparelho respiratório acabou não resistindo ao impacto tão violento. Ela morreu doze dias depois. Era um grupo de amigos que conversava numa praça. O motorista também atingiu Vitor Tadeu de Oliveira Leal que, felizmente, sobreviveu.
Depois de tantas conquistas, Paulo sonhava, aos 45 anos, ter mais um filho. Bia sonhava com um irmão. Até batizou-os: Bernardo ou Maria Clara, dizendo que seria a madrinha. E também prometia ao pai netinhos “para breve”. Bia tinha muitos outros sonhos: estudante do 2º ano de Nutrição na Veiga de Almeida, presidente da comissão de formatura, estagiária em clínicas e monitora de Anatomia, ela planejava montar uma casa de atendimento para pessoas humildes. “Quero ajudar quem mais necessita”, repetia ao pai querido. Paulo já colocara à sua disposição um imóvel adquirido com trabalho estenuante.

Bia Botelho
A bela Bia Botelho.

Tirada da Terra muito prematuramente, Bia levou com ela uma parte de Paulo. Ele continua enfeitando feiras com suas flores, mas não consegue trabalhar como enfermeiro e médico – está de licença dos empregos públicos que conquistou por concurso. Faz tratamento psiquiátrico para tentar suportar a dor. É como se uma camada de vidro opaco cobrisse o seu olhar. O sorriso só começa a reaparecer agora, com muito esforço, e apenas quando lembra das boas lembranças que a filha deixou.
O nome do rapaz acusado de matar Bia está na minha frente no boletim de ocorrência. Ele é acusado de lesão corporal culposa e continua com vida normal. Há a desconfiança de que estava alcoolizado. Quantas vezes Paulo deixou de almoçar para conseguir ajudar os pais com as flores e, ao mesmo tempo, cursar a faculdade? No vestibular para Enfermagem passou em primeiro lugar, no vestibular para Medicina passou para a primeira opção da Cesgranrio. Paulo só conseguiu fazer Medicina dois anos depois de concluir Enfermagem porque sempre teve que trabalhar muito. “O que valeu tudo isso se a Bia não está mais aqui?”, pensa incessantemente o médico florista. Ele ainda não sucumbiu porque sua família continua sendo um esteio: os pais, as irmãs, a mulher Alessandra Pappaterra. Bia era filha de seu primeiro casamento com Flávia Barreto Novaes, também devastada pela perda. Todos estão se apoiando uns nos outros. “Meu afilhado Luizinho, meu professor de boxe Alessandro e o mestre Casquinha, do jiu-jitsu, também têm me ajudado muito”.
Nesse instante, penso nos pais do rapaz acusado de matar Bia. O que eles pensam e o que sentem? Como se sentiriam se seu filho fosse morto? Para entendermos a dor temos que nos colocar no lugar do outro que a sente. Espero que, aprendendo com a dor do outro, eles nunca sintam uma dor igual.

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